terça-feira, 9 de março de 2010

REVIRAVOLTA PRAGMÁTICO- LINGUÍSTICA.

Reviravolta pragmático-lingüística. AUTOR: HUGO NETO. UMA ANÁLISE SUPERFICIAL DE WITTGENSTEIN NO TOCANTE A FILOSOFIA ANALÍTICA OU FILOSOFIA DA LINGUAGEM.
Introdução
No presente trabalho, intensificamos, nossa investigação sobre a problemática da linguagem, e o que estudiosos da semântica vão chamar de “Reviravolta pragmático - lingüística” na filosofia contemporânea. Apesar da linguagem ganhar terreno na filosofia contemporânea, as concepções, principalmente a concepção tradicionalista da linguagem ainda gera amplas discussões. Entendemos que, no bojo de tais discussões, e concepções, podemos perscrutar e posicionar-nos de acordo com nossos autores. Pretendemos nesse trabalho, utilizar Wittgenstein contra si próprio e, ao mesmo tempo, resgatar toda tradição lingüística, promovendo uma explicitação e/ou problematização de uma reviravolta pragmática da linguagem.
Concepção instrumentalista da linguagem.
Na tradição, desde Crátilo de Platão, a linguagem ocupa um espaço secundário sob o aspecto epistemológico, a linguagem teria um caráter designativo. Parte-se do pressuposto que, o já conhecido é simplesmente comunicado, indicado por meio de sons emitidos. Wittgenstein aceita no primeiro momento, o caráter designativo da linguagem, embora discorde da tradição por exagerar na concepção da designação como aspecto absoluto da linguagem. Wittgenstein aceita no Tractatus a tese tradicional do caráter secundário, designativo da linguagem humana. Wittgenstein não vai negar o caráter designativo da linguagem, mas vai rebelar-se, fortemente contra o exagero da tradição – posição assumida também no Tractatus – de ver na designação a principal e até mesmo a única função da linguagem. Precisamente nisso vai constituir para ele a limitação da filosofia ocidental da linguagem. (OLIVEIRA. P.120) É notório que Wittgenstein tenta desvenciliar-se da concepção de linguagem da tradição já em seu Tractadus, mas a procura lógica, por uma linguagem perfeita, em consonância com uma estrutura ontológica, afiguração[1] linguagem e mundo, perpetra o entendimento essencialista[2] da linguagem. Quando a questão posta é o essencialismo tradicional em filosofia, duas questões se desdobram, os que digam que as palavras dizem respeito a coisas singulares, outra questão se desdobra sobre a essência de tais coisas “singulares”. Portanto a essência comum entre essas coisas. Em suma, temos de uma vertente que afirma que a linguagem só diz respeito a coisas singulares: (Palavra – objeto singular). Outra vertente, também essencialista, diz o contrário: (frase – Objeto- essência). Apesar da dicotomia entre as duas teorias, pouco acrescenta. Uma vez que o caráter da linguagem em ambos os casos ainda é designativo, e secundário ao conhecimento. Tradicionalmente a filosofia se ocupou dessas questões[3], não fora diferente com a linguagem. Em suma, as palavras tem sentido porque há objetos que elas designam: coisas silgulares ou essências. Esses objetos são dos mais diferentes tipos, havendo mesmo objetos muito especiais, os fatos, as situações objetais, designado pelas frases. A última forma dessa teoria no ocidente é exatamente a teoria da afiguração como correspondência estrutural entre a frase e o estado de coisas, respectivamente, fatos, elaborada no tractatus. A frase representa, por semelhança estrutural, o estado de coisas por ela referido. A teoria do Tractatus significa, linguagem e mundo. Já que a linguagem não passa de um reflexo, de uma cópia do mundo, o decisivo é a estrutura ontológica do mundo que a linguagem deve anunciar. (OLIVEIRA. P.121). Nesse aspecto, entendemos que embora Wittgenstein, rebele-se contra tradição, afirma o aspecto essencialista da linguagem, deslocando de sua condição inferior, trazendo-a para o âmbito da discussão no Tractatus. Baseado nessas conclusões, em que consiste essa reviravolta? O que leva Wittgenstein depor contra si mesmo perante o tribunal da razão? O que leva Wittgenstein depor contra si mesmo, poderíamos dizer... Não se sabe ao certo, dependeria daquilo que a tradição ocidental denominou “atos espirituais”. Ironia a parte, nosso intento é dizer que não se sabe ao certo quais transformações[4] sofreu Wittgenstein do Tractatus, em relação ao denominado 2º Wittgenstein de Investigações filosóficas. Certo é que, tal reformulação conceitual, tal quais os efeitos dessa mudança de paradigma, mudou radicalmente a concepção da semântica tradicional. Atos espirituais e concepção tradicional. A concepção tradicional da linguagem sempre esteve arraigada a determinadas concepções antropológicas. O tradicionalismo que Wittgenstein denuncia na linguagem, tem como pressuposto toda uma concepção, na qual se engendra os atos espirituais. Determinar a essência de algo significou, na metafísica clássica, estabelecer o lugar ocupado por algo no todo, traçar seus limites com outras realidades situadas na ordem universal, isto é, no mundo. Definir o homem significa distingui-lo de não-homem. Definir a linguagem humana era distingui-la de outras linguagens, por exemplo, a dos animais. (OLIVEIRA. P. 122). A tradição atribuía valor e significação aos sons por ser tratar no fundo de um ato subjetivo, um ato espiritual. Portanto a comunicação intersubjetiva perpassava por duas substâncias (Homem) – (Homem) que lhe atribuía significação segundo aquilo que a pragmática lingüística chamaria de “ter-em-mente”. O que faz a linguagem humana propriamente humana? Ora, isso não pode estar no plano puramente físico, pois animais ou diversos instrumentos também produzem sons. O que transforma propriamente o puro som em linguagem humana é o pensamento como ato do espírito. O pensar é uma atividade espiritual assim como o falar é uma atividade corporal. Ora, uma das principais atividades espirituais e o ter-em-mente. Ao lado de pensar, emitir juízos, compreender etc., O ter-em-mente é um daqueles atos do espírito associados ao ato acústico, corporal, da produção dos sons, sem os quais esses sons não possuem significação. (OLIVEIRA. P122). Para Wittgenstein, a tradição ocidental trás consigo, no aspecto da linguagem a mesma dualidade da concepção de Homem (Antropológica). Tal dualismo pode ser explicitado na linguagem como ato corpóreo (emissão de sons) e ato espiritual (apreensão, compreensão e sentido). A partir de um suposto ato espiritual incorpora-se o sentido dado ao ato corpóreo. Nesse sentido o caráter da linguagem ainda é designativo. Wittgenstein chega a conclusão de que é preciso desmantelar a concepção de linguagem solipsista, que a filosofia não deve se encarregar de tal dieta unilateral[5],que alimenta nosso espírito apenas com uma espécie de exemplos, um verdadeiro ciclo vicioso. Pode-se dizer, com muita razão, que para Wittgenstein a tradição tem uma concepção subjetivista e individualista da linguagem humana: Individualista porque se abstrai da função comunicativa e interativa da linguagem e subjetivista,porque considera as convenções e regras lingüísticas como dados imediatos da intuição do sujeito falante, e não como um resultado de um processo de socialização. (OLIVEIRA. P.125). Wittgenstein manifesta-se como um vento em gritante ataque a concepção subjetivo-essencialista da filosofia tradicional, e contra si mesmo, aquele que chamamos de 2º Wittgenstein, vai erigir contra si mesmo um ataque violento que corresponde a uma reviravolta na concepção da linguagem contemporânea. Crítica epistemológica da linguagem Wittgenstein ao criticar a concepção designativa da linguagem assim como o caráter essencialista dessa concepção, põe em cheque o dualismo epistmológico-antropológico que permeia a concepção de linguagem. A partir dessa crítica, Wittgenstein depõe contra si mesmo em relação a sua posição dogmática no Tractatus. Uma vez que a concepção dual entre sons e atos espirituais não leva em conta a linguagem enquanto linguagem. Segundo Wittgenstein da segunda fase, não se pode conceber linguagem sem seu uso sócio-prático. Portanto é o uso da linguagem que determina seu sentido, inserida num contexto social. Wittgenstein, portanto, desloca a linguagem de uma concepção subjetivista, ou de um ato intencional[6] qualquer implicando movimento a linguagem, que constitui-se,em sua práxis. Wittgenstein oferece em suas investigações filosóficas um exemplo disso. A primeira coisa feita aqui é o abandono do ideal de exatidão da linguagem. Essa tese, que é fundamental no Tractatus, pressupõe que no mundo há entidades cuja estrutura ontológica seja claramente determinada e da qual a linguagem seria uma. A linguagem comum é essencialmente indeterminada e, por essa razão, a pesquisa lingüística deveria constituir uma linguagem artificial, modelo de exatidão e paradigma da linguagem comum. (OLIVEIRA. P.131). Foi justamente esse arquétipo de linguagem, levado as últimas conseqüências no Tractatus. A pretensão de uma exatidão da linguagem já não seduzia o 2º Wittgenstein, justamente o que o leva a depor contra si mesmo e contra a tradição da qual endossou suas críticas. Para o segundo Wittgenstein, tal ideal não passa de um mito filosófico. Um ideal de exatidão totalmente desligado das situações concretas do uso da linguagem carece de qualquer sentido (IF 88). Como veremos é impossível determinar a significação das palavras sem uma consideração ao contexto socioprático em que são usadas. (OLIVEIRA. P.131) A linguagem não é exata, está sempre aberta a codificações e recodificações, que em última instância vai depender do contexto em que tais significações se dão, contudo o papel da comunidade histórica, na formação da cultura e a forma de expressar de uma determinada comunidade tal qual seu uso corrente da linguagem, o que Wittgenstein denomina “jogos de linguagem” que vai determinar a validade e a praticidade da linguagem. “Por isso, mesmo, o ideal do Tractatus de uma linguagem perfeita se manifesta agora como um puro absurdo; Aqui está, justamente, a razão da reviravolta metodológica de Wittgenstein.” (OLIVEIRA. P.132). A Nova imagem da linguagem. Diante de tal crítica erigida à tradição ocidental e a concepção filosófica no aspecto da linguagem, poderíamos nos perguntar; qual a posição de Wittgenstein a partir de tal problema filosófico? “A partir de tal crítica apresentada à teoria tradicional podemos concluir que Wittgenstein não tem resposta a dar a essa pergunta” (OLIVEIRA.P.137). - ­Pois, bem, poderíamos indagar ainda: Como não? Após levantar tantas críticas e a criticar a si mesmo? Segundo Wittgenstein a filosofia deve observar e não interferir ou fundamentar o funcionamento da linguagem. “Por essa razão, falamos não de uma nova teoria da linguagem, mas de uma nova imagem” (OLIVERIA. P138). O que caracteriza esse novo olhar sobre a linguagem segundo Wittgenstein, é uma atividade humana, seu uso cotidiano, uma ação. “O que caracterizava essa nova orientação é para ele agora, a linguagem humana como andar passear colher etc. Há aqui uma intima relação senão identidade, entre linguagem e ação de tal modo que a linguagem é considerada uma espécie de ação.” (OLIVEIRA. P.138). São, sobretudo, contextos de ação, o que Wittgenstein chama de “formas de vida”. Esses contextos de ação são chamados por Wittgenstein de formas de vida (IF 7,12,23) , e a linguagem para ele é sempre uma parte, um constitutivo de uma determinada forma de vida,e sua função, por isso, é sempre relativa á forma de vida determinada, á qual está integrada; ela é uma maneira segundo a qual os homens interagem,ela é a expressão de práxis comunicativa e interpessoal. Tantas são as formas de vida existentes, tantos são os contextos praxeológicos, tantos são os modos de uso da linguagem, ou, como Wittgenstein se expressa, tantos são os jogos de linguagem. (OLIVEIRA.P.138). Tais formas de vida, ou jogos de linguagem são possíveis apenas num contexto sócio-prático. Wittgenstein não pretende fundar uma sociologia da linguagem, muito menos superestimar o contexto social, Wittgenstein apenas desloca a linguagem de um uso ideal, inserindo-a na realidade, naquilo que chamamos de práxis. A linguagem como prática, como vivência de um contexto dentre vários jogos de linguagem. Tais jogos de linguagem como denomina Wittgenstein é o pressuposto para o entendimento da linguagem utilizada. Portanto a utilização e compreensão da linguagem dependem do jogo de linguagem utilizado. Que por sua vez, depende do contexto histórico e social comunitário para sua aplicação. “O conceito de jogo da linguagem pretende acentuar que, nos diferentes contextos, seguem-se as diferentes regras, podendo-se a partir daí, determinar o sentido das expressões lingüísticas. Ora, se assim é, então a Semântica só atinge sua finalidade chegando à pragmática.” (OLIVEIRA. P.139). O aprendizado de uma regra, portanto, por supor um ato livre de pessoa, de modo algum pode ser comparado a um processo de condicionamento causal como o behaviorismo[7] o pensa. Não são reflexos condicionados, não são hábitos adquiridos e repetidos mecanicamente, mas uma prática baseada num saber, na espontaneidade do indivíduo que subjazem á aplicação da regra. (OLIVEIRA. P.144) A linguagem é uma ação comunicativa, pressupõe sujeitos livres, livres de qualquer condicionamento seja externo ou ontológico. Wittgenstein da segunda fase parece-nos afirmar uma (a) – determinação da linguagem. Portanto não lidamos mais com um isomorfismo. Não há um ideal de uma gramática pura, haja vista que, a gramática se faz em seu uso, chega-se a conclusão que, uma gramática pura como pretendia o Tractatus é apenas um jogo de linguagem dentre tantos, e nem por isso menos necessário. As regras que surgem num processo de interação social se distinguem, radicalmente, por exemplo, das regras gramaticais da linguagem ideal do Tractatus, pois estas exprimem simplesmente conexões simbólicas no nível do símbolo puro. As conexões simbólicas da linguagem comum não são, nesse sentido, puras, pois só são inteligíveis num contexto de interação. Aliás, a linguagem pura é em si mesma, também um jogo de linguagem específico e, portanto, um processo de interação social; só que em virtude de seu caráter de pureza dá uma impressão de pureza. (OLIVEIRA. P.145). Basta-nos pontuar a reviravolta pragmático-linguística na filosofia, diante de tais fatos, e até mesmo, Wittgenstein contra si mesmo. A ação, o engajamento da linguagem no contexto histórico, esse fazer do sujeito na linguagem e da linguagem a partir desses jogos, jogos que pressupõe um saber jogar. Saber jogar que pressupõe a internalizazão de uma regra. “É jogado o jogo que aprendemos, de fato, suas regras. Daí a necessidade de um adestramento: no caso da linguagem comum, trata-se de aprender um processo de comunicação normado.” (OLIVEIRA. P.145). Conclusão: Ao discorrer e discordar de toda tradição, desde a concepção de linguagem em Platão até os nossos dias, a problemática se coloca no âmbito da ação. A linguagem deixa de ser vista como um ato intencional, para Wittgenstein, deixa de ser, aliás, não é nem um ato intencional muito menos uma espécie de behavorismo. Não se pode falar em essência da linguagem, uma vez que, para Wittgenstein, e a filosofia analítica o erro da filosofia é justamente o emprego incorreto da linguagem, calcado numa metafísica cujo “eu” solipsista prevalece sobre todos os sentidos. Embora, de certa forma, Wittgenstein cometa o mesmo erro de linguagem no Tractatus. Wittgenstein depõe contra si mesmo perante o tribunal da razão, dizendo: Embora não tenha dito, e para não colocar palavras na boca de Wittgenstein, eu mesmo, irei dizer: “Errei, compreendi de uma forma a linguagem e o mundo no qual se expressa, não levei em conta a linguagem enquanto ação e movimento reprodutor, codificador e recodificador de significados”. Implicitamente a estaticidade da linguagem enquanto figuração do mundo possível, não permite movimento. Num espaço lógico uma proposição verdadeira é ou não é objeto do mundo. No mais; não há devir. O 2º Wittgenstein não só permite movimento, como afirma sua oposição a metafísica clássica. Opõe a si mesmo na busca de uma coerência, uma vez coerente, afirma os jogos de linguagem tanto quanto a linguagem como processo de interação. Wittgenstein é o protagonista da reviravolta pragmática na linguagem justamente por isso, e notório que, após todas essas perspectivas, a linguagem torna-se objeto de estudo para além das perspectivas abertas nas Investigações Filosóficas de Wittgenstein, por isso, sem dúvida, Wittgenstein se torna um paradigma, não só por sua postura perante o já citado tribunal da razão, do qual nenhum filósofo escapa. Mas por ter abeto esses conceitos que marcaram a filosofia contemporânea, elevando a linguagem a um objeto de estudo cobiçado. Referências Reviravolta lingüístico pragmático na filosofia contemporânea. OILIVEIRA Araújo Manfredo. Edições Loyola. 2004. São Paulo. http://www.mundodosfilosofos.com.br/ [1] Teoria na qual Wittgenstein afirma um isomorfismo cuja linguagem reflete o mundo. [2] Concepção na qual a linguagem é simplesmente mediadora entre a subjetividade humana e a essência das coisas ditas. Portanto a linguagem é designativa. [3] Questões como: essência, existência, aparência, espírito, intuição. Enfim, questões clássicas na História da filosofia. Sobretudo, a metafísica. [4] Transformação subjetiva, uma ironia de minha parte, uma vez que, o próprio Wittgenstein rejeitava qualquer solipsismo a moda cartesiana. Nesse sentido, uma transformação subjetiva sem valia alguma. [5] É precisamente essa dieta que está em ação quando a tradição reduz a linguagem humana à pura função designativa. (cf. IF. 593). [6] Linguagem corrente de outra linha de pesquisa, a fenomenologia, linha concorrente a pragmático- analítica na qual Wittgenstein fazia parte. [7] Teoria da psicologia que determina a ação por apreensão de condicionamentos externos.

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